25 jovens da Fundação Casa de São Carlos concluem Time do Emprego

Tiago, 16 anos. Diego, 18. A mãe é a mesma, assim como a “residência” atual: a Fundação Casa de São Carlos, para onde foram levados após um flagrante de roubo a estabelecimento comercial. O mais novo, que fez aniversário em abril, já em reclusão, ajudava no bar que a família toca. Perguntado do porquê do crime, não hesita: “Foi pela adrenalina, pra ver como era”. Mas, pelas contas dele, a ação também renderia uma moto, comprada na “quebrada” por R$ 500, e algumas roupas.

fundação casa orador
Diego desde criança flertava com o perigo, mas pela primeira vez foi pego e agora está prestes a completar oito meses de medida socioeducativa. “Queria tirar minha carta (de motorista)”, justifica. Um dos mais empolgados oradores durante evento realizado no local, no final da semana passada (17 de julho), ele promete que vai mudar de vida. Descontraído, articulado, conta feliz sobre o curso que acaba de concluir – do Time do Emprego – e tem planos para fazer outros, bem como seu irmão, que ainda não tinha idade para participar quando este começou.

Já Pedro, 18 anos, foi apreendido por tentativa de latrocínio. Entrou no mesmo período que os outros dois, até as mães acabaram ficando chegadas. A previsão é permanecer de um ano a um ano e três meses. E a expectativa é aproveitar todas as oportunidades que aparecerem. “Já fiz curso de panificação, lancheteria, pintura em tela, informática, texturização e, agora, o Time do Emprego”, enumerou.

“Tô desde os 11 anos nesse mundo. Por ilusão, por achar que era bom. Pensava que era legal fumar um baseado, roubar. É minha segunda vez aqui. Na primeira tinha 16 anos e fiquei sete meses. Saí, tava com a mente de ficar tranquilo…”. O que deu errado? “Conheci uma menina, queria dar o que não podia. Falta de conselho não foi”, confidenciou.

A mãe, Sandra, acompanhava a conversa. Rosto sofrido, lágrimas contidas. “Espero que ele enxergue o que fez e aproveite a oportunidade pra sair uma pessoa melhor. Ele viu que essa vida não levou a nada”, conta a trabalhadora de serviços gerais que vem de um longo passado na lavoura. “No primeiro roubo, a mãe já começa a perceber. Acho que foi por causa de amizade meio errada”, especula.  Pedro contesta: “Pra mim, não vai da companhia, vai agora de eu querer voltar. Ela fez o que pôde. Eu sei que é sempre bom tá é com Deus”, disse.

fundação casa com mãe
A religiosidade, aliás, esteve presente nas falas, nos quadros pintados pelos meninos, na presença de representantes das igrejas católica e evangélica que atuam na unidade. O secretário do Emprego e Relações do Trabalho, José Luiz Ribeiro, que foi prestigiar a formatura dos 25 internos no Time do Emprego, citou trechos da Bíblia e emocionou ao falar de sua crença.

“É Jesus Cristo que temos de adorar e buscar nele força, sabedoria, capacidade. Ele está de braços abertos para receber cada um de vocês. Não estamos preocupados com o que fizeram, mas com o que vão fazer quando saírem daqui. Queremos o bem de vocês. Queremos vocês pessoas determinadas, felizes, jovens de futuro”, disse, relembrando o passado de dificuldades. “Trabalhei na roça e só calcei o primeiro sapato com 12 anos de idade. Já morei em um barraco com 20 pessoas.”

Dois vereadores presentes, Cidinha do Oncológico e Dé Alvim, também falaram ao coração dos meninos. “Já tive um irmão na mesma situação de vocês”, disse ela. “Perdi um irmão com cinco tiros na porta de casa. Ele não teve a oportunidade que vocês estão tendo. As mães de vocês vão embora daqui com os corações tristes, chorando…”, desabafou Dé.

A coordenadora do Time do Emprego, Sandra Império, explicou que dentre os 12 módulos do programa há um chamado “Quem sou eu”, e é este o mais enfatizado dentro da Fundação Casa. “Ele permite descobrir potencialidades, habilidades, rever conceitos, pensar no futuro e fazer um retrospecto. É neste momento que você pode transformar vidas”, disse, empolgada. Durante seu pronunciamento, falou do poder das escolhas, dos sonhos e do empenho pela realização deles.

fundação casa são carlos mesa embaçada
O diretor da unidade, Marcelo Viana Barense, agradeceu pelo trabalho do Time, em especial aos facilitadores Darlene, Meire, Itamar, Ivan (que recentemente deixou a SERT, indo para a Prefeitura), Lucas, Raul e Juliane. “Estamos atentos a novas parcerias, porque a gente precisa disso”, ressaltou.

No próprio evento surgiram possibilidades: o prefeito Paulo Altomani comentou sobre sua ideia de levar ao local um curso de pintura baseado nas telas de Candido Portinari e o fato de ter notado alguns reparos necessários na unidade. Já o titular da SERT colocou a possibilidade de levar a Escola do Empreendedor, ligada ao Banco do Povo Paulista, para a Fundação Casa, como forma de despertar nos meninos a vontade e, quem sabe, a habilidade para tentarem negócios próprios no futuro.

Alguns jovens que fizeram uso da palavra citaram o desejo de mostrar que podem ser diferentes “do que pensa a sociedade”, que têm como “dar certo na vida”, que querem agarrar as oportunidades e ter uma trajetória de honestidade e trabalho. “Força, foco e fé” foram a tônica das falas. Cada diploma entregue, mesmo para os que insistiam em manter as cabeças baixas, tinha como retorno um aperto de mão forte, um abraço dado com vontade, um sorriso esperançoso.

*Os nomes atribuídos aos entrevistados e a uma das mães são fictícios; as falas foram usadas de forma literal

Saiba mais sobre o Time do Emprego: http://migre.me/qTl3Z, sobre a Escola do Empreendedor: www.escoladoempreendedor.sp.gov.br  e veja todas as fotos: http://migre.me/qTgIg

Adriana Rota
Assessoria de Imprensa da SERT