A mulher sindicalista luta por seu espaço

por Davi Zaia

A luta da mulher por espaços nos sindicatos é a sua própria batalha por afirmação na sociedade. Relegadas no passado ao papel de “dona de casa”, seu ingresso no mercado de trabalho é recente – considerando o tempo histórico – daí as dificuldades, aos poucos superadas, de assumirem tarefas de mais responsabilidade e comando.

A partir de meados do século X IX, em princípio ocupando profissões consideradas femininas, como o magistério, para, mais recentemente, exercer funções que antes eram “exclusivas” dos homens, as mulheres avançam. Ainda assim, recebem em média 25% a menos que os seus colegas.

A ousadia da baiana Maria Quitéria, que, nos longínquos 1822 se transvestiu de homem para lutar pela independência do Brasil e, depois de descoberta, continuou incorporada a tropa por seus próprios méritos: coragem, ideal e exímia pontaria. A educadora Leolinda de Figueiredo Daltro, outra baiana, uma das precursoras da participação feminina nas campanhas eleitorais, ainda antes da conquista do voto, candidata constituinte, em 1933, ou ainda Edwiges Maria Becker a primeira mulher a se formar engenheira no Brasil, em 1919. Inúmeros são os exemplos, no passado e no presente, em épocas duras como o Estado Novo e a ditadura militar, em que a mulher teve participação destacada.

Na política brasileira, o direito ao voto feminino foi marcado por lutas, avanços e retrocessos. Em 1891, Saldanha Marinho apresentou uma emenda dada como praticamente aceita. Mas a pressão foi tanta que Epitácio Pessoa, um de seus subscritores, retirou seu apoio dez dias depois de assiná-la.

A luta pelo direito de votar prosseguiu em meio a outras iniciativas. A primeira experiência eleitoral viria a acontecer em 24 de fevereiro de 1932, ainda assim, apenas para as casadas (com a autorização dos maridos), viúvas e solteiras com renda própria.  As restrições acabaram em 1934, quando as mulheres conquistaram finalmente o direito de voto, ainda que facultativo (apesar de ser obrigatório para os homens).  Em 1946, com o fim do Estado Novo, o volto feminino foi garantido na Constituição aprovada.

Coube a Celina Guimarães, de Mossoró, Rio Grande do Norte, ser a primeira mulher a se inscrever como eleitora.  Seu Estado de origem esteve na vanguarda dos acontecimentos por ser o primeiro a permitir o voto das mulheres, em 1928. Sua conterrânea, Alzira Soriano, foi eleita prefeita de Lajes, mas não completou o mandato, porque uma comissão do Senado cassou todos os votos femininos, sob a alegação de ausência de uma legislação específica.

Em 3 de maio de 1933, a medica paulista Carlota Pereira de Queiroz foi a primeira mulher a ser eleita deputada federal. Só em 1976, teremos a primeira senadora, Eunice Michilles (PDS-AM), que assumiu em substituição ao senador João Bosco de Lima, titular do cargo, vieram depois, as senadoras Junia Marise (PRN-MG) e Marluce Pinto (PTB-RR), eleitas em 1990, a primeira governadora, Roseana Sarney (PMDB-MA), em 1994, e, a partir deste ano, Dilma Roussef (PT), a primeira mulher presidente da República.

Atualmente, duas governadoras, oito senadoras, 45 deputadas federais e 135 deputadas estaduais compõem a política brasileira.  É, também, cada vez mais freqüente a presença das mulheres em cargos de presidência e de diretoria, em empresas, sindicatos e centrais sindicais. Muitas estão à frente de suas organizações.

Um dos primeiros registros de liderança da mulher no movimento sindical se deu em 1937, quando a bancária Gysmunda Pezzi, assumiu por pouco tempo como presidente do Sindicato dos Bancários de Caxias do Sul (RS).

Por sua entrada tardia no plano da política e no mercado de trabalho, a participação da mulher em cargos máximos nos sindicatos, movimentos sociais e estudantis, e partidos políticos ainda é reduzida, situa-se ao redor de 20%. Mais recentemente, foi introduzida na legislação eleitoral a política de quotas que reserva no mínimo 30% dos cargos eletivos às mulheres. Essa medida, festejada por alguns e criticada por outros, que a consideram discriminatória, vem sendo assumida por alguns sindicatos e centrais sindicais.

Em alguns setores a presença da mulher é predominante, como no comércio. Sua participação no mercado de trabalho se torna maior, segundo as estatísticas, quanto mais elevado o seu grau de instrução. Atualmente é presença efetiva nos mais variados segmentos, seja no meio urbano ou rural. No passado ainda recente, poucos imaginariam uma mulher em um canteiro de obras ou em uma planta industrial. Hoje, isso ficou para trás.

Com o aumento da participação feminina no mercado de trabalho aumentou também o número de reivindicações específicas nas campanhas salariais sindicais como os de proteção a maternidade e paternidade (auxílio creche, licenças e outros benefícios), igualdade de oportunidades e salários, contra o assédio moral e sexual.

Em outras palavras, as mulheres estão vencendo os preconceitos e conquistando o seu merecido espaço na sociedade.