Asidh reúne histórias de superação

Se num local onde estão várias pessoas com deficiência você falar sobre Paulo Gabriel da Silva Barros, poucos saberão quem é. Mas experimente dizer Paulinho Gigante. Aos 30 anos, o servidor público da prefeitura de Itapeva, bacharel em Direito, nasceu com acondroplasia, um tipo de nanismo que tem como principais características o tamanho do corpo ser desproporcional ao dos membros e a impossibilidade do fechamento dos dedos.

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Paulinho Gigante

Somente a partir de 2004 essa passou a ser considerada uma deficiência. “Se existissem níveis, a minha poderia ser considerada de média para grave”, calculou. Bebê de tamanho normal, aos sete anos tinha 70 centímetros. Hoje, são 90. Segundo ele, é possível detectar o nanismo por ultrassom, mas não revertê-lo. O da “namorida” esteticista Katyucia Hoshino, 26 anos, que é de Londrina – cidade que teria mais recursos à época – foi constatada assim.

Paulinho vivenciou todas as dificuldades, mas hoje pode se considerar um vencedor. A primeira escola não queria aceitá-lo. Sugeriu que fosse para a Apae. “O trabalho deles sempre foi sensacional, mas o enfoque é outro”, comentou. A avó, que o criou, insistiu. Os anos se seguiram com poucos problemas com colegas. “Eram os funcionários que tinham excesso de cuidado.”

Hoje, motorista de um carro adaptado, conta que foi levado à escola num carrinho de bebê por muitos anos e que “aposentou” o triciclo infantil com o qual se locomovia somente em 2008. Motivo? Não andava até então. “Foi por falta de conhecimento. Até que um dia um ortopedista disse que havia um calçado que eu poderia usar. Seria doloroso (como ainda é, se usa por muito tempo) e demoraria cinco anos, no mínimo para eu conseguir fortalecer os músculos. Em uma semana, 15 dias, já tinha abolido o Velotrol”, comemora.

Uma característica apareceu durante toda a conversa: sua profunda determinação. “Tem quem me ache guerreiro, diversificado. Tem também muito preconceito e gente que olha como se eu fosse coitadinho. Mas tive de aprender a lidar”. Estudou informática na adolescência, entre uma balada e outra, o que o ajudou a conseguir o primeiro emprego na própria prefeitura, à época, como contratado.

O prefeito realmente queria ajudá-lo e foi buscar dentro do órgão onde poderia encaixá-lo, encontrando o almoxarifado. Uma rampa foi construída no prédio, outras adaptações foram feitas, e lá ele ficou por quatro anos e seis meses. Terminando o terceiro ano, ingressou numa faculdade do município.

Participou de um programa de TV, o que o deixou “famoso” principalmente no meio político. Resultado? Se candidatou a vereador e foi suplente em duas ocasiões, inclusive no momento permanece como tal. E continua acreditando que pode colaborar com a causa das pessoas com deficiência, então, continuará tentando.

Chegou a trabalhar também no Jurídico da Câmara e, em 2009, prestou dois concursos. Foi chamado para o que concorreu sem necessidade da Lei de Cotas. Atuou como educador social numa entidade de acolhimento de crianças e jovens – e, sim, sentia medo porque em geral eram todas maiores que ele. Mas por pouco tempo, porque logo foi convidado a colaborar na parte administrativa, ficando responsável por áreas como compras, manutenção do prédio e controle de 68 funcionários.

Quanto ao outro concurso, precisou recorrer na Justiça por um erro de interpretação referente à porcentagem da cota. Venceu e abriu um precedente. Na semana passada, recebeu um convite para atuar no Procon. Está trabalhando na criação de uma associação de pessoas com deficiência. Para o futuro, pretende seguir carreira como delegado ou juiz. “Sei que vou ter de estudar muito, mas nada me assusta.”

Ele diz que faltam oportunidades, mas acha que as pessoas com deficiência também têm uma parcela de culpa. “Nos fazemos de vítimas, muitas vezes. Sabe o que me lembrei? Em 2004 fui chamado para uma entrevista numa empresa grande. Disseram que tinha todo o perfil para a vaga. Paguei do meu bolso para um ortopedista fazer um relatório que pediram. Disseram que entrariam em contato… até hoje estou esperando… (risos)”. O recado é: os obstáculos são muitos e grandes, mas precisam ser derrubados.

Mais sobre a Asidh

O casal estava prestigiando a 1ª Ação Social de Inclusão da Diversidade Humana (Asidh), realizada na última quinta-feira (27 de agosto) pela Federação dos Empregados no Comércio do Estado de São Paulo (Fecomerciários) e pelo Sindicato dos Empregados no Comércio de Sorocaba (Sincomerciários). Participaram também da organização a Prefeitura e o Programa de Apoio à Pessoa com Deficiência da Secretaria do Emprego e Relações do Trabalho (PADEF/SERT).

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A supervisora do PADEF, Marinalva Cruz

O evento teve o intuito de valorizar a diversidade e zelar pela inclusão com qualidade, pela ampliação da acessibilidade universal e a humanização nas relações de trabalho. A supervisora do PADEF, Marinalva Cruz, sua equipe e funcionários do PAT Sorocaba prestaram atendimento ao público em dois estandes e ministrando palestra. O secretário-adjunto do Emprego e Relações do Trabalho, Eufrozino Pereira da Silva, representou o governador Geraldo Alckmin.

Entidades, órgãos públicos, iniciativa privada, bombeiros civis, estudantes, profissionais de RH e pessoas com deficiência prestigiaram a iniciativa. A tônica foi a necessidade de conscientização da sociedade e, principalmente, do empresariado a respeito do potencial e da capacidade das pessoas com deficiência, seja de nascença ou resultado de acidentes. O trabalho é encarado como a melhor maneira de incluir socialmente esse público, não por caridade, mas por reconhecimento ao talento.

A Asidh contou, ainda, com a apresentação do livro Trabalho de Pessoas com Deficiência e Lei de Cotas – Invisibilidade, Resistência e Qualidade da Inclusão, elaborado pelo Espaço da Cidadania com auxílio do PADEF, além de palestras, apresentações artísticas de pessoas com deficiência – coral, bateria de escola de samba, balé e teatro.

(Veja mais fotos: http://migre.me/rlqym)

Adriana Rota
Comunicação da SERT